23:18

Era de manhã, o despertador estava a tocar mas eu tinha madrugado e estava já sentada com a minha caneca de café quente e o jornal diante. O mundo continuava igual, ruindo aos poucos com a crise, guerra, manifestações, assassinatos, uma miséria mas se o fosse a comparar com o meu coração poderia até dizer que este órgão que tanto bate cá dentro está bem pior. Parei com a leitura para limpar as lágrimas que iam correndo ao perceber já nem estava a prestar atenção ao que ali estava escrito mas antes ao quanto eu andava com o coração desfeito, era ainda de manhã e já estava a lavar a cara com as minhas próprias angustias. Lembro-me de deitar o meu corpo que foi perdendo peso ao longo destes quatro meses e ficar ali, parada a olhar para o tecto da sala, com a cabeça na almofada e presa ao passado. Comecei a contar com os dedos os dias que faltavam para comemorarmos mais um mês de agoiros, distante um do outro, queria eu dizer. Sabes... ainda não tive a coragem de tirar as nossas fotografias da parede azul da minha sala, estão tão lindas, os meus olhos estão brilhando em todas elas, o meu sorriso é tão teu tal como o coração que nelas não se vê mas percebesse que batia ao mesmo tempo que o teu. Tenho também sobre o móvel um monte de cartas pouco planificadas, com palavras de amor, com carinho escritas, e essas cartas eram tuas, destinadas ao teu coração agora tão completo com o de outro alguém sem ser eu. Bem ao lado está o telefone, esperando mais uma daquelas recaídas em que nele pego e marco o teu número só para ouvir a tua voz do outro lado imaginando-te sorrir maravilhosamente como só tu o sabes fazer. 
Não devia estar sempre a culpar o monstro que há em mim, eu posso ter estragado muita coisa mas estou aqui, ainda deitada no sofá arrependida de todas as vezes que gritei contigo por meros ciúmes sem fundamentos. Eu não te queria perder com todas as minhas inseguranças, muito menos ver-te chorar e dizer que era desta. Vês? Estou tendo outra recaída, esta é com saudades do teu abraço, de ter o meu coração bem perto do teu a bater numa melodia bem lenta e melancólica. Estou com saudades tuas, saudades de ser apenas tua e não desta tristeza que tomou o teu lugar quando dissemos adeus, cada um com a sua razão, cada um com o seu enorme orgulho. 
Acho que estou a precisar de mais tempo, estes últimos meses não chegaram para me acostumar à ideia que tens outro alguém, que agora és outra pessoa. Devia vestir um casaco qualquer e ir para a rua mas ela parece ser só minha, todos me olham e vêem a tristeza que já nem me esforço por esconder. Quem sabe daqui a uns meses te escreva dizendo que me acomodei à sensação de te esquecer, à sensação de ser feliz novamente, amando-me como só eu o sei fazer.

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